A incrível corrida do palestrante velocista versus o conversador calmo

Cenário: um evento reunindo profissionais de uma área bastante técnica. Personagens: dois palestrantes de áreas afins (mas não a mesma área), de gerações e estilos diferentes – um jovem e arrojado; o outro da velha guarda e pouco interessado na última palavra em tecnologia. Desafio: fazer a plateia compreender e se envolver com suas respectivas mensagens. Quem ganha?

   É claro que não houve uma competição declarada, nem mesmo velada. Mas nós, intérpretes, trabalhando dentro da cabine de tradução, às vezes nos permitimos um certo nível de divagação sobre o que acontece nos eventos.

O caso dos dois palestrantes tão diferentes, que se apresentaram numa mesma tarde – mas não um em seguida do outro –, foi exemplar para mim. Foi um momento para notar o quanto a comunicação não depende apenas do grau de conhecimento de quem fala e de quem ouve, mas sobretudo da capacidade de gerar empatia e engajamento (palavrinhas da moda, eu sei, mas aqui fazem todo sentido).

Vamos à “corrida”. O palestrante mais jovem foi bastante elogiado pela organização por trazer um tema inovador e ser um “ótimo palestrante”. E ele realmente abordou um assunto sob um ângulo diferente – era o terceiro ou quarto dia do evento, muita coisa já se repetia –, era enérgico e envolvia os participantes com perguntas e relatos de casos que traziam imediata identificação. Mas eram casos demais. Perguntas demais. Slides demais. Bullets nos quatro cantos de cada slide. Para dar conta de tudo, palavras demais. O cara acelerou, pisou fundo e falou na velocidade da luz. Fez tudo sem deixar de sorrir e tentar envolver os presentes, mas a velocidade era tanta que a plateia parecia já não saber se compreendia, se aprovava, se seguia – enfim, se entendia.

O segundo palestrante também foi bastante elogiado e aplaudido ao ser anunciado. E já foi logo declarando:

— Tenho uma apresentação aqui, mas não sei se vou seguir.

Na cabine, as intérpretes trocam aquele olhar que se traduz em “lá vem improvisação...”

Ele prosseguiu:

— Também não vou contar meu tempo. Sei que tenho menos de 50 minutos, então quando eu tiver de parar alguém me avisa. Ah, vou falar devagar. Tem gente do mundo inteiro assistindo a gente pela tradução simultânea e não deve ser fácil traduzir esse tema, ainda mais falando rápido.

E começou.

Foi uma aula.

Misturando casos, alguns dos slides da sua apresentação – sem texto, só fotos e legendas – e detalhes técnicos e pessoais, ele conseguiu envolver a plateia naquele nível-jô-soares-quando-acaba-a-entrevista – ou seja, o “aaaaah” lamentando quando o tempo acabou. Não há dúvidas sobre quem venceu a hipotética corrida pela melhor comunicação.

Verdade seja dita, estou comparando profissionais com trajetórias e expectativas distintas – um provavelmente mais ansioso para mostrar seu trabalho à plateia, e decidindo fazer isso colocando o máximo de informação possível nos 50 minutos que lhe cabiam; o outro, já muito bem estabelecido e conhecido de todos, apenas querendo repartir seu conhecimento.

O público, tanto o que ouviu ambos nos idiomas em que palestravam como aquele que o fez pela tradução simultânea, certamente absorveu mais do orador que se preocupou em comunicar sua mensagem de forma clara – mesmo que, para isso, tenha deixado muita coisa de fora. Será que quem faz uma palestra, dá uma aula ou um curso ao vivo precisa colocar tudo o que sabe no tempo que lhe é dado? Ou vale mais deixar uma mensagem clara e um convite para que a plateia se interesse mais pelo assunto e continue sua própria pesquisa, com ou sem a ajuda do orador?

Estou dizendo que todo orador precisa falar mais devagar? Longe de mim, pois cada um tem seu estilo. Mas, mais do que transmitir a mensagem, é preciso entender quem vai ouvi-la. Comunicação, afinal, é uma via de mão dupla, envolve quem fala e quem ouve.

 

PS: Adivinha quem foi o único palestrante de todo o evento que veio perguntar aos intérpretes se havia sido compreendido? 

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Texto publicado originalmente em https://tinyurl.com/yxf957s4

 
Considerações sobre a cabine

Novembro é alta temporada de trabalho para intérpretes e isso me permitiu algumas reflexões sobre o espaço onde trabalhamos. Sim, a cabine de interpretação ou tradução simultânea, aquela caixa com isolamento sonoro onde passamos algumas horas com um colega (o “concabino”) durante o trabalho (em tempo: a foto acima é ilustrativa, não se refere a nada citado aqui).

Nas últimas semanas, trabalhei em lugares diferentes e com configurações idem, mas três espaços me chamaram mais a atenção: um pela localização desconfortável, outro por ser praticamente perfeito para trabalhar e o terceiro por ser o pior para o intérprete – provavelmente planejado por alguém sem a menor noção do que é o trabalho da tradução simultânea.

O primeiro caso. Numa sala plana, de disposição horizontal, a cabine foi colocada na lateral, e não no fundo. Entendo que o cliente queria o máximo de espaço possível para cadeiras; afinal, eram cinco filas na vertical por 30 cadeiras na horizontal, mais ou menos, com portas de saída nos fundos. Com a cabine na lateral, os intérpretes são obrigados a trabalhar com o pescoço virado o tempo todo para enxergar o palestrante e a apresentação na tela. Pior: algumas partes da tela (da apresentação) nem ficam visíveis e o palestrante acaba ficando de costas em alguns momentos.

O segundo caso. Alguns locais, em geral auditórios, possuem cabines prontas, construídas junto com o ambiente. São normalmente salas pequenas com uma grande janela de vidro na frente, permitindo aos intérpretes ver o palco e parte da plateia. Possuem tomadas, iluminação e isolamento acústico. A que me refiro aqui era perfeita: ficava ao lado de um banheiro, da sala do técnico responsável por transmitir as apresentações e o som (a “house”) e de uma salinha com sofá e café para todos esses profissionais. A cereja do bolo: uma tela na mesa dos intérpretes mostrando o que acontecia no palco E a apresentação na tela. Ou seja, podíamos ler na nossa frente o que acontecia, sem precisar de binóculos para enxergar o palco (sim, o uso de binóculos é necessário em algumas situações).

O terceiro caso. Prédio novinho, ligado à chamada nova economia, com todos aqueles selos de sustentabilidade e a cara do novo milênio por toda parte. O auditório tinha sua cabine construída junto com o projeto do prédio (como no exemplo acima), o que poderia ser perfeito, certo? Errado. A janela de vidro que permite a visualização do palco deste lugar é tão alta que o intérprete precisa ficar em pé para ver o que está acontecendo lá embaixo. Pior: o cliente adesivou a parte inferior do vidro com sua marca e a área de visualização ficou ainda menor. Resultado: trabalhei em pé e com o computador (que fica ligado o tempo todo durante o trabalho para que eu verifique o meu glossário) em cima de uma maleta, pois assim ficava mais perto dos meus olhos. Por sorte, o trabalho durou apenas uma hora.

Quem não sabe muito como os intérpretes trabalham pode se perguntar: ué, mas a tradução não é feita com o áudio? Por que é preciso ver o palco? Explicando: a interpretação simultânea trabalha, obviamente, com a linguagem falada, mas é também preciso enxergar a linguagem corporal e os outros inputs visuais, tais como a tela com a apresentação, um vídeo, a movimentação de outras pessoas que podem estar sendo referidas pelo palestrante e muitos outros etc.

Em geral, quem escolhe a posição da cabine é o cliente. No entanto, como alguns não entendem muito bem como funciona a tradução simultânea, a posição costuma ser a mais “escondida” possível. É uma pena: fazer um evento custa muito dinheiro. Trazer convidados internacionais, ainda mais na situação em que vivemos no nosso país, é bastante custoso. Aos olhos da planilha de custos apenas, a interpretação pode parecer cara, mas é ela que irá garantir a comunicação ideal entre pessoas de duas (ou mais) culturas diferentes. Providenciar as melhores condições para que a interpretação ou tradução simultânea aconteça em condições ideais engrandece o evento. E nem custa mais: basta se informar com quem entende do tema para melhorar o trabalho de todos.

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Texto publicado originalmente em novembro de 2019 em https://tinyurl.com/yxdarhbm

Dormir como “médico”, acordar “chef”: a bela sina do tradutor e intérprete

Quantas profissões podemos ter dentro de uma profissão? Não digo carreiras, pois isso é senso comum. Profissões. Acordar “engenheiro” numa semana e “guru de autoajuda” na seguinte. Dormir “médico” numa sexta-feira e começar a semana como “pedagogo”. Nós, tradutores e intérpretes, nos sentimos assim tantas vezes em nossas vidas. Estudamos um tema com tanta sofreguidão – às vezes, com sofrência mesmo –, mergulhamos em seus detalhes mais escondidos – e em duas línguas! -- que sofremos da ilusão de dominarmos aquele outro universo. De pertencermos àquele universo.

Não, não precisamos ser outra coisa: somos tradutores e intérpretes com orgulho. Habitamos o mais rico dos universos entre as profissões. Todo nosso talento, nossa dedicação, não é para sermos um melhor “médico”, “guru” ou “chef”, e sim para que médicos, gurus, pedagogos, artistas circenses e tantos outros possam conversar entre si, possam fazer com seus talentos, dúvidas e descobertas se traduzam perfeitamente em outra cultura. Nossa missão é ajudar com que cada um desses profissionais seja melhor em suas áreas. Que bela missão!

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Venho pensando nisso desde sexta-feira, quando me deparei com um texto de autor anônimo sobre um médico descrevendo uma consulta – reproduzo o texto ao final deste artigo. Compartilhei-o em grupos de tradutores como uma curiosidade: a intenção não foi a de validar a mensagem do texto, mas sim colocar o holofote no uso dos verbos, colocações e jargões específicos de médicos. Quando trabalhamos com médicos, precisamos falar como eles, “ser” como eles, ao menos na comunicação. O mesmo vale para o direito, uma área que, sem exagero, tem uma língua própria. E a poesia? E o humor? E as tecnicidades todas? Tradutores e intérpretes passam horas, dias, semanas, uma eternidade para adquirir o tom certo, a maneira perfeita para dizer algo para não causar estranhamento ao leitor ou ouvinte. Entra na mente alheia e amplia sua própria. Pode ser profissão mais gratificante?

"Uma Consulta Anacrônica

O médico anacrônico puxou, com os dedos, a pálpebra inferior da paciente, para verificar se ela estava corada. Aproveitou para certificar-se que não havia icterícia, e que as mucosas brilhantes e úmidas confirmavam seu bom estado de hidratação. Com o auxílio de uma lanterna, verificou a simetria e os reflexos pupilares. Pediu para ela abrir a boca e mostrar a língua, e deu uma olhada rápida no estado dos dentes e da mucosa oral. Depois, olhou o pescoço à procura de alguma alteração e apalpou a glândula tireóide. Enquanto a paciente se despia, sentiu aquele suave aroma de banho recém-tomado, cheiro de sabonete e xampú, não mascarados por perfumes em excesso. Por um instante, lembrou-se que o olfato e paladar eram os sentidos que os médicos menos costumam usar, mas pelo menos a paciente não tinha hálito cetótico nem hepático. Reparou que o estado nutricional da paciente era bom, sem excesso de gordura nem flacidez muscular. As mamas, pouco assimétricas mas com o caimento fisiológico e proporções naturais, claramente não tinham próteses implantadas, nem retração dos mamilos. A postura era normal, sem escoliose ou outros desvios da coluna. As unhas bem tratadas, sem distrofias, mostravam aquele rosado normal por trás do esmalte translúcido, e as polpas digitais mostravam uma perfusão sanguínea adequada, com rápido retorno à cor normal após a breve apalpação. A pele não tinha manchas, piercings nem tatuagens - raridade nos dias de hoje. Apalpou os pulsos radiais, carotídeos, femorais e pediosos, comparou sua amplitude em ambos os lados do corpo para certificar-se não haver sinais de obstrução ou coarctação de aorta. Contou a frequência cardíaca e evaliou o ritmo, percebendo não haver pausas ou extra-sístoles. Pegou o seu estetoscópio e esfigmomanômetro, aferiu a pressão arterial com a paciente deitada e depois de pé. Com a palma da mão, localizou o ictus cordis e o frêmito tóraco-vocal. Aqueceu a campânula do esteto e auscultou minuciosamente o coração e o trajeto das carótidas à procura de sopros, atritos ou abafamentos. Com os dedos indicador de uma mão e médio da outra, percutiu os espaços intercostais - som claro pulmonar. Auscultou o murmúrio vesicular. Pediu para a paciente inspirar e expirar pela boca, enquando verificava se havia algum sopro tubário ou anfórico. Viu que o movimento da caixa torácica era normal, com uma boa expansibilidade. Pediu para que ela falasse "trinta e três", atento para uma eventual pectorilóquia ou voz caprina. Apalpou as cadeias ganglionares cervicais, axilares e inguinais e não encontrou sinais de adenomegalias.

Apalpou e percutiu o abdome, caracterizou o tamanho aproximado do fígado, suas bordas - se rombas ou não, o baço e os rins. Percutiu as lojas renais - sinal de Giordano negativo! Constatou não haver nenhuma massa abdominal anormal palpável. Pediu para a paciente caminhar pela sala, observando a marcha, o equilíbrio e o movimento das articulações. Pediu para a paciente sentar-se na maca e com o auxílio de um martelo de borracha conferiu os reflexos osteotendinosos: bicipitais, tricipitais, patelares. Colocou-a de joelhos, na cadeira, e avaliou os reflexos aquileus. Passou a ponta da tampa da caneta Bic na planta dos pés de rotina, mesmo sabendo que não iria se deparar com o sinal de Babinski. Testou o equilíbrio com olhos abertos e depois fechados, a coordenação de movimentos. Testou a força muscular de preensão, a força de flexão e extensão contra-resistência.

Parecia tudo absolutamente normal. Foi aí que o médico anacrônico, ligando esses dados com a anamnese que havia antecedido o exame físico, em que a paciente havia lhe contado detalhadamente as características de seus sintomas, concluiu que a paciente não estava com nenhuma doença grave e decidiu tranquilizá-la, dizendo não haver necessidade de nenhum exame complementar além daqueles normais que ela havia feito há 2 semanas a pedido de outros médicos e que ele vira de relance antes de examiná-la. Recomendou exercícios físicos, orientou uma dieta adequada, além de cuidados para garantir um sono tranquilo e controle do stress, e pediu para que retornasse após um mês ou antes, se surgissem sintomas novos. Receitou alguns sintomáticos, mas para usar somente se necessário.

A paciente saiu desapontada, pensando que especialista ela poderia procurar agora e que pudesse lhe pedir uma ressonância magnética do corpo inteiro ou algum outro exame mais moderno, para achar aquela doença que o médico anacrônico não foi capaz de encontrar. Afinal, um médico que nem pede exames modernos e caros certamente deve estar ultrapassado...

Autor desconhecido”

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Texto publicado originalmente em setembro de 2019 em https://tinyurl.com/yylgcqxo

O intérprete não é um fingidor

Reflexões sobre a formação do intérprete na área médica

Longe de mim usar o santo nome de Fernando Pessoa em vão, mas seria o intérprete um fingidor*, fingindo que é seu o discurso que deveras proclama? Afinal, como traduzir simultaneamente com segurança uma aula ou palestra de alguém que domina aquele tema há anos ou décadas? Como comunicar corretamente um discurso repleto de jargões e tecnicidades entronizados há tanto tempo pelos profissionais de uma determinada área?

É claro que usar o termo fingidor foi um exagero. Não, o intérprete de conferência, profissional sério e comprometido com a comunicação entre duas culturas, não é um fingidor. Estudamos arduamente a cada evento para levar com maior precisão possível o discurso de uma língua para outra. Mas é inegável que um intérprete trabalhando em um evento de, digamos, endocrinologia clínica, está longe de ter o conhecimento completo de um endócrino clínico. E como fazer? Esperar a próxima encarnação? Desistir de fazer trabalhos nessa área para sempre? Sentir-se para sempre "um fingidor"? Deixar a interpretação apenas para intérpretes com formação médica (e de fato existem profissionais fantásticos com essa dupla formação)? Nem isso resolveria, pois mesmo os médicos não têm formação em tudo – neurocirurgia não é embriologia; oncologia tem particularidades que escapam a gastroenterologistas e por aí vai.

Fiquei pensando nesses temas depois de fazer o (fabuloso) EPIC MED, um curso de três dias intensos realizado em São Paulo pela Língua Franca e conduzido pelas intérpretes do Coletivo Intérpretes, conhecidas pela especialização de clientes de área médica/saúde (mas não só). Quase todas as profissionais do Coletivo têm formação na área de saúde – duas são médicas.

No entanto, como ficou claro ao longo do curso, o ponto não está apenas nessa formação específica além da formação em interpretação, e sim em todo o pacote que faz o bom profissional: domínio dos idiomas com os quais trabalha; da “mecânica” da interpretação (simultânea ou não); da capacidade de resolver problemas rapidamente; da ampla cultura e conhecimento de mundo e do grande conhecimento do tema com o qual se vai trabalhar. E neste último ponto, o bicho pega: não dá para adquirir em alguns dias (ou, com sorte, semanas) o mesmo nível de conhecimento de alguém que estuda e trabalha numa área específica há anos.

Há muitas estratégias para que essa lacuna seja diminuída, apresentadas com maestria ao longo do curso. De forma muito, mas muito resumida, elas envolvem a preparação deliberada de glossários amplos (e que podem ser usados para eventos diferentes); o estudo focado e rotineiro (inclusive quando não há trabalhos na área no horizonte); as conversas ou entrevistas com os participantes do evento (quando possível) sobre o seu trabalho; a escolha de parceiros experientes para eventos de média e alta complexidade. Uma dica de ouro de Andréa Negreda, uma das professoras do curso: “Cada evento tem algo como 10 palavras que são fundamentais. Elas vão aparecer várias vezes, na voz de diferentes palestrantes. E essas 10 palavras precisam ser ditas com propriedade.”

Tornar-se um intérprete da área médica é, sobretudo, um exercício de paciência e perseverança: são anos de preparo cuidadoso, consistente e refletido. Mas, fazendo o caminho certo, quando menos espera o intérprete deixa de se sentir um fingidor e assume a propriedade do discurso diante de um tema complexo. E sem fingir que é dor.

 

*Do poema “Autopsicografia”, de 1932

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

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Texto publicado originalmente em março de 2019 em http://tiny.cc/3q4hcz

Transcriação x localização x tradução

Uma famosa marca internacional de cosméticos usa um slogan poderosíssimo há mais de 40 anos: “Porque eu mereço”. Em Portugal, é “Porque você merece”. Em inglês, a frase original, criada por uma publicitária de 23 anos em 1973 na McCann Erickson (#MadMenfeelings), é “Because I’m worth it!”. Simples, traduzível, fácil de ser absorvida por outras culturas e línguas. Mais ainda, já transmitia uma sensação de empoderamento quando essa palavra nem existia (eu ainda resisto a escrevê-la, mas vamos lá).

Há ótimos slogans universais nascidos no inglês que se encaixam perfeitamente em outras línguas – “Amo muito tudo isso/I’m loving it/Me encanta/C’est tout ce que j’aime” de uma grande rede de fast food; “Sinta o sabor/Taste the feeling/Siente el sabor”, da bebida mais famosa do mundo, entre outros.

Criar um slogan é trabalho que envolve semanas, até meses de trabalho, de mais de uma equipe. Alguns casos são inspiração de um profissional apenas, mas são raros. No mundo globalizado, os slogans já são gerados com uma fácil adaptação a outras culturas. Mas a linguagem publicitária vai muito além do slogan e nem sempre é tão fácil de ser traduzida para outras línguas. Diferentes culturas criam referências que são muito caras a um mundo extremamente competitivo e de rápido consumo de informação. E é aí que entra a transcriação, ou transcreation.

A transcriação é uma modalidade de tradução na qual o tradutor ou equipe têm liberdade para criar sobre o texto da língua original. Quando o profissional recebe essa tarefa, sabe que deve ir além da adaptação linguística, buscando uma adequação cultural – mesmo que isso signifique um texto maior ou menor que o original. Exemplos fáceis: ver se a referência ao encontro de família durante o feriado de Thanksgiving (tradição norte-americana) pode servir para o Natal sem mudar o sentido do texto; transformar um relato baseado em metáforas do futebol americano e suas estrelas para outro falando do nosso futebol e nossos craques.

Há uma dose de risco: o tradutor precisa abandonar as referências meramente pessoais para enxergar as locais e, mais ainda, lapidar as que se adequam ao público ao qual a mensagem se dirige. Também precisa ter uma profunda compreensão da intenção da mensagem original, pois apenas adaptar a referência cultural pode ser insuficiente (se o negócio era vender capacetes, por exemplo, trocar estrelas do futebol americano pelo futebol brasileiro não vai adiantar nada). A transcriação é cada vez mais solicitada para textos de marketing, vendas, publicidade, press releases e hotsites de empresas anunciando novos produtos ou serviços.

Você pode estar pensando: mas esse trabalho não é chamado de localização? Nem sempre. Na localização, a tradução também sofre adaptações de acordo com a cultura e a língua de chegada (aquela para qual se traduz), mas essas mudanças são centradas em itens menos subjetivos, como medidas de peso, comprimento e temperatura, além de dados específicos como leis e políticas locais. A localização é uma modalidade que encontra campo na tradução de softwares, jogos, manuais, materiais de treinamentos, pesquisas, testes de produtos etc.

E o que “sobra” para a tradução, pura e simples, embora nenhuma tradução seja pura ou simples? Quase tudo! Além da literatura, podemos citar relatórios corporativos e financeiros, estudos científicos e acadêmicos, documentos, reportagens, documentários, patentes e um longo etc. São textos em que o tradutor precisa ser o mais fiel possível ao original, guardando as diferenças linguísticas, obviamente.

Já a tradução da língua falada ganha outro nome ­­­– interpretação – e também pode ser dividida em diferentes modalidades, sendo as principais simultâneaconsecutiva e de acompanhamento.

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Texto publicado originalmente em junho de 2017 em https://bit.ly/2MKg0U4

Interpretação em acompanhamento

Quando se fala em intérprete de língua estrangeira, muita gente já pensa no profissional que fica na cabine, fone de ouvido e microfone a postos, ou naquele que faz a transmissão do Oscar. Mas o campo de trabalho do intérprete vai muito além de congressos e eventos. Uma área, em particular, tem um bom mercado no Brasil: o acompanhamento.

               Como o nome já diz, nessa modalidade o intérprete acompanha o(s) cliente(s). Em geral, são estrangeiros em visita ao Brasil para fazer negócios e/ou prospectar mercado que não falam português ou falam muito pouco. Alguns têm até bom nível da língua, ou do portunhol, mas preferem, com razão, a segurança de fazer sua comunicação corretamente. A interpretação é parte de seu investimento.

               Na prática, o intérprete faz um pouco de consecutiva (quando aguarda um parágrafo inteiro ou mais de fala para reproduzir em seguida o que foi dito), um pouco de intermitente (interpretando frase a frase) e até simultânea sussurrada (durante uma reunião, por exemplo). Para o intérprete, o trabalho pode ser ainda mais desafiador que o de um congresso muito técnico ou de um evento de tema espinhoso. Algumas razões:

               - Se está sozinho, e não em dupla, o intérprete fala por todos, os brasileiros e os estrangeiros. Haja água para hidratar as cordas vocais e cérebro atento para pular de língua o tempo todo;

               - O ambiente dificilmente terá a acústica adequada para ouvir e falar. Pelo contrário: esses trabalhos costumam incluir visitas técnicas em fábricas, lojas, laboratórios e outros ambientes barulhentos ou nos quais todos precisam estar paramentados (com máscaras, por exemplo, no caso de laboratórios). Além disso, brasileiros adoram discutir negócios em almoços, nem sempre nos ambientes mais silenciosos do pedaço;

               - O glossário preparado previamente vai ajudar, mas é preciso estar pronto para tudo. Quem viaja para outro país para fazer negócios não vai conversar apenas sobre aspectos técnicos de seu produto ou empresa. Vai discutir legislação, impostos (como mostra a foto no início do texto), costumes locais, economia geral e até política. É preciso estar preparado inclusive para conversar um pouco sobre a gastronomia e as atrações turísticas locais. Cultura geral é, portanto, fundamental;

               - O distanciamento não é apenas necessário: ele é vital para a profissão. Por mais que o intérprete tenha se envolvido com as negociações, assistido aos bastidores e estudado o tema, a empresa e os personagens envolvidos no trabalho, sua opinião deve ser guardada para si. Confundir proximidade com intimidade é fatal. O trabalho do intérprete, seja acompanhando um cliente ou traduzindo uma palestra, é sempre, sempre o de facilitar a comunicação entre duas ou mais pessoas. 

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Texto publicado originalmente em fevereiro de 2017 em https://bit.ly/2P6eeOF

A beleza da interpretação consecutiva

Bloquinho na mão, o intérprete escreve seus hieróglifos enquanto o orador fala, fala e parece se esquecer que parte da plateia não entende seu idioma. Ou toda a plateia. Quando ele faz uma pausa, surge o intérprete que, a partir de suas anotações, apresenta a versão do que foi dito na língua que o público compreende.

A interpretação (ou tradução) consecutiva é assim: o profissional ouve uma fala por alguns minutos e, em seguida, traduz o que foi dito. No passado, até os tempos de “Downton Abbey”, os intérpretes brilhavam por proferirem discursos longos na língua de chegada em jantares suntuosos, partilhados por nobres e diplomatas. Os próprios intérpretes eram, muitas vezes, membros da realeza ou esposas de embaixadores e cônsules.

Hoje, longe das taças de cristal de outrora, a interpretação consecutiva é a modalidade usada apropriadamente em reuniões de negócios, aulas, pequenos eventos e consultas médicas. Não exige o aluguel de equipamentos e geralmente pede a presença de um só profissional. Mas, por isso mesmo, a interpretação consecutiva também é vista muitas vezes apenas como um “método mais econômico” por clientes que não se incomodam com as dificuldades inerentes a esse trabalho. E só por isso acaba sendo usada em congressos e grandes eventos, em detrimento da tradução simultânea, mais adequada para essas ocasiões.

Mas qual seria, afinal, a vantagem da consecutiva? Uma boa consecutiva entrega para a plateia um texto mais limpo e com informações consolidadas. Na simultânea, muitas vezes o intérprete acompanha o orador por digressões que não são necessárias para a compreensão da mensagem – mas, como ele faz a tradução simultaneamente, “ao vivo”, não tem como saber isso de antemão. Já a consecutiva consegue juntar as ideias em pequenas unidades informativas para construir um discurso mais uniforme.

Por isso, a consecutiva é também uma ferramenta extremamente valiosa para o intérprete. A partir dela o intérprete consegue ter o instrumental para trabalhar cada vez melhor também nas outras modalidades (como simultânea e intermitente). Mesmo assim, muitos intérpretes fogem dela por razões variadas, entre elas:

- Medo de se expor ao público (a cabine, afinal, é uma caixa-protetora)

- Pânico de não entender suas anotações e travar na hora H.

Quanto ao medo de palco, essa é mais uma questão pessoal do que um osso do ofício impossível de roer e pode ser trabalhada em aulas de teatro, dinâmicas ou terapia. Já o capítulo “anotações” pode e deve, sempre, ser aprimorado. Anotar não é escrever rápido, nem escrever tudo. Criar seus próprios símbolos antes de cada trabalho e treinar muito com eles ajuda bastante. Intérpretes costumam ter seu arsenal particular de símbolos universais e outros criados apenas para determinadas áreas.

Mais do que treinar os olhos no papel e os dedos na caneta, no entanto, é preciso ter ouvidos e cérebro preparados para separar o discurso em unidades de informação. E isso pode ser feito treinando em casa, ouvindo e separando o texto nessas unidades, muitas vezes, muitos textos, antes de começar a treinar a anotação e o delivery. Algumas dicas preciosas de anotação e precisão na tradução são dadas por Andrew Gillies no livro Note-taking for Consecutive Interpreting: A Short Course. Gillies, por sinal, estará no Brasil neste ano (julho de 2017) para cursos em São Paulo e no Rio de Janeiro. É hora de treinar antes de encarar o mestre!

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Texto publicado originalmente em abril de 2017 em https://bit.ly/2w7oPQR

Intérprete em cenário médico não é terapeuta

Ou, pelo menos, tenta não ser

O quadro é complicado. Já fragilizado por alguma doença ou acidente, o paciente estrangeiro se sente ainda mais desamparado por não conseguir se comunicar em português (ou na língua do país onde está). A chegada de um intérprete para auxiliá-lo nesse momento difícil é um verdadeiro prêmio. E é aí que mora o perigo: intérprete não é terapeuta, enfermeiro ou médico, muito menos parente.

Certa vez, um executivo estrangeiro internado num grande hospital não se conformava com o fato de não poder sair andando pelo hospital – a verdade é que ele queria encontrar um fumódromo e acender um cigarro após tantos dias do estresse da internação. Achou que a intérprete era sua aliada e começou a bolar estratégias para escapar.

A conversa seguia nos caminhos da ficção – para a intérprete – até que o paciente chegou ao ponto de pedir que ela contatasse o consulado de seu país, pois se “sentia um refém” do hospital. E a intérprete? Bom, depois de traduzir todos os mais estapafúrdios pedidos do paciente para a equipe, achou por bem sair um pouco do papel neutro e demovê-lo da ideia. Com calma, foi explicando que o hospital estava fazendo tudo para que ele melhorasse e tivesse alta, que o consulado tinha coisa mais importante para fazer poderia demorar para agir, que em breve ele receberia outro patch de nicotina – e umas gotas de Rivotril, devidamente prescritas e ansiadas pelo próprio paciente – para acalmar. Passou.

Um intérprete em cenário médico precisa transbordar empatia. Muito além da língua e da terminologia médica usada em hospitais pelas equipes multidisciplinares que ali trabalham – incluindo a equipe do financeiro responsável por atender o seguro médico de pacientes do exterior –, é preciso entender a cultura do país do paciente. Uma anedota: certo paciente de país de língua inglesa hospitalizado reclamou que queria muito comer gelatina, mas, toda vez que pediu isso para a equipe, recebeu um copo com gelo. Não haviam entendido que ele queria “jell-o” (gelatina), apenas... gelo.

Não são apenas os hábitos pessoais – de alimentação e higiene, por exemplo, importantes numa rotina de internação –, mas também as estruturas do país de origem. Dados que ajudam no trabalho: o sistema de saúde é muito diferente do nosso? Dá-se ênfase para a prevenção de doenças? Um paciente internado pode solicitar serviços externos? Uma rápida pesquisa na internet ou um bate-papo com um colega familiarizado com a cultura do paciente podem agilizar o trabalho de todos. Outro ponto importante: informar-se sobre os limites do trabalho com o cliente (seguradora). Certa vez, um intérprete foi dispensado porque emitiu uma opinião (negativa) a respeito de um médico. O próprio paciente havia pedido a avaliação do intérprete – novamente, um caso comum de confusão de papéis. Mas a seguradora soube e não gostou nada da interferência.

Obviamente, muitos desses casos de interpretação em cenário médico envolvem emergências*, sendo difícil se preparar com antecedência para demandas tão específicas. O intérprete é muitas vezes chamado pela seguradora ou pelo hospital de uma hora para outra e sabe pouco mais que o nome do paciente, o quarto e, com sorte, um breve diagnóstico. Ao chegar no hospital ou clínica, o intérprete é recebido muitas vezes por um paciente debilitado e/ou impaciente pela situação vivida e precisa agir com a maior calma e segurança possíveis. Se o paciente não é falante nativo da língua para a qual se interpreta, o esforço é dobrado. Foi o caso do paciente japonês que se expressava na maior parte do tempo em sua língua natal, esquecendo que precisava usar o inglês. Pode ter certeza que a Estratégia Pinguins de Madagascar – sorria e acene, sorria e acene – não fere o ego de ninguém.

Algumas coisas que o intérprete em cenário médico precisa ter ou saber:

- Vocabulário médico-hospitalar na ponta da língua;

- Zero aflição de ambiente hospitalar;

- Zero aflição de sangue, fluidos e conversas sobre detalhes de cirurgias e afins;

- Paciência para aguentar momentos de tédio – quando o paciente está no pós-cirúrgico ou adormecido, por exemplo;

- Sangue frio para se manter atento se o quadro clínico se complicar. A presença do intérprete pode ver vital num momento assim;

- Profissionalismo ao fazer a ponte entre o cliente – a seguradora – e o paciente, considerando as necessidades de ambos;

- Empatia em grau máximo. O intérprete está lá para promover a comunicação entre pessoas de línguas diferentes, mas pode muito bem auxiliar o paciente num momento complicado. Intérprete não é terapeuta, mas é ser humano.

 

* Há interpretações em cenários médicos devidamente agendadas, claro. Pacientes estrangeiros que vêm ao país para algum procedimento, por exemplo, e contratam um intérprete com antecedência para acompanhá-lo em consultas, pré e pós-operatório.

** Para quem quer se aprofundar, a Alumni, em São Paulo, já formou duas turmas do curso Intérprete em Cenários Médicos em 2016 e 2017, coordenadas pela excelente Patrícia Gimenez. Eventos e workshops organizados pelo Tradusa abordam temas comuns da área.

Precisando de serviços de interpretação em cenário médico? Escreva para info@houseofwords.com.br

Texto publicado originalmente em janeiro de 2018 em https://bit.ly/2MiT026